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Vitória de Santo Antão

Um século da Juventude Operária Católica (JOC) é celebrado em Vitória de Santo Antão

  • Lissandro Nascimento
Um século da Juventude Operária Católica (JOC) é celebrado em Vitória de Santo Antão

Uma das mais longevas organizações juvenis do Brasil completa 100 anos marcando a consciência político-social de milhares de cidadãos que militaram em sua juventude por um mundo humano de maior empatia em suas moradas, fábricas, escolas, comércio e igrejas. A Juventude Operária Católica é um movimento da Igreja Católica para jovens entre 14 e 30 anos.  A JOC desempenhou um papel importante no cenário nacional na construção de uma nova utopia, principalmente a partir do golpe de 1964 que procurou amordaçar as poucas vozes que se levantaram para defender os direitos dos trabalhadores.

Fundada em Bruxelas (Bélgica), em 1923, pelo Sacerdote belga Joseph Cardjin, oriundo de família operária. Em 1925, durante seu Primeiro Conselho Nacional naquele país, foi oficializada. Expandindo-se internacionalmente, o Movimento instituiu a Internacional Jocista (JOCI) em 1947, também sob a liderança do Padre Cardjin, com o objetivo de fortalecer sua coordenação, tanto a nível local, quanto nacional e continental.

Trata-se de um movimento que foi influenciado pelo humanismo de Jacques Maritain, pelo personalismo social de Emmanuel Mounier, pelo evolucionismo progressista do jesuíta Teilhard de Chardin, pela reflexão social dos dogmas de Henri de Lubac (jesuíta), pela teologia dos leigos do dominicano Yves Congar e pela teologia do trabalho de Marie-Dominique Chenu (dominicano).

No final da década de 1980, a JOC surgiu em Vitória de Santo Antão, na Mata Sul pernambucana, abrindo um leque de ações entre sua juventude, ajudando a ampliar a atuação social de jovens católicos entre as paróquias, além de ter contribuído na formação de dezenas de jovens para a construção do movimento estudantil secundarista, bem como da organização sindical dos comerciários na cidade.

Uma de suas ações concretas que marcaram a história local foi a participação no Movimento Popular pela elaboração da Lei Orgânica (constituição municipal) na Câmara de Vereadores em 1990, que assegurou importantes avanços nas políticas públicas da Vitória de Santo Antão e redefiniu o horário de trabalho dos trabalhadores(as) do comércio vitoriense.

Para reencontrar inúmeros militantes da JOC daquele período, a Professora da rede pública de ensino, Etiene França, organizou evento de confraternização no último domingo (17.08), em Vitória de Santo Antão. “Foi um belo e rico reencontro com amigos e amigas que hoje estão em outras frentes de atuação social, mas ligados a essa belíssima experiência da militância jocista em nossas vidas, que contribuiu para a formação de nossas personalidades e do compromisso com o avanço de uma sociedade mais justa”, disse ela.

Enquanto Movimento de Igreja e parte da Ação Católica, a JOC guardava seu caráter religioso, mesmo quando elaborava uma concepção de fé bem mais voltada para a realidade social do que outras tendências no interior da própria Igreja. Propõe-se a ensinar o jovem trabalhador a viver uma vida completa e mais humana, a ser um corpo representativo que defenda o direito dos operários. Constitui-se em torno da proposta do jovem operário tornar-se um apóstolo no próprio meio operário, construindo sua formação na e pela ação, fundamentada na metodologia do ver, julgar e agir.

Método Ver, Julgar e Agir

Para a JOC, o “Método Ver, Julgar e Agir” não é uma simples técnica de programação de reuniões e encontros, mas o método fundamental de educação e evangelização de jovens.

Esse método pretender capacitar os jovens do meio operário e popular como militantes operários cristãos, comprometidos na transformação da realidade e, com esse espírito, desenvolver, através da ação, a tarefa educativa e evangelizadora. Trata-se de um método que deve ser aplicado a todos os aspectos da vida dos jovens trabalhadores.

  • Ver: observar o que se passa à nossa volta: acontecimentos, casos, atitudes nossas ou de outros e a partir dessa observar tentar descobrir as causas e consequências dos fenômenos;
  • Julgar: confrontamos a realidade observada com os valores do Evangelho; os Direitos Humanos e a Doutrina Social da Igreja;
  • Agir: organizar-se com outros jovens em pequenas e sucessivas ações nos locais de trabalho, escola, bairro; ou então participar de grandes iniciativas para buscar soluções para um problema que aflige muitos.

História

Em 1923, foi fundada a JOC, em Bruxelas (Bélgica), por iniciativa do sacerdote belga Joseph Cardjin, um padre oriundo de uma família operária. A experiência foi expandida para outros países até que em 1947, foi instituído o Movimento Internacional Jocista (JOCI), também sob a liderança do Padre Cardjin.

A JOC tem como missão: “a libertação dos jovens trabalhadores e trabalhadoras; ser testemunha da presença libertadora de Jesus e do projeto de Jesus Cristo no seio da classe operária.”

A JOC era parte da Ação Católica e elaborava uma concepção de fé bem mais voltada para a realidade social do que outras ações no interior da Igreja Católica. Seu propósito era o de ensinar o jovem trabalhador a viver uma vida completa e mais humana e a ser um corpo representativo que defendesse o direito dos operários. Desse modo o integrante da JOC deveria ser um apóstolo no próprio meio operário, construindo sua formação na e pela ação, fundamentada na metodologia do “Ver, Julgar e Agir”.

Durante a Segunda Guerra Mundial, diversos integrantes da JOC na França se juntaram à Resistência Francesa, como por exemplo: André Denis, Eugene Descamps, Émile Engel, Georges Montaron, Gilbert Pradet, Henri Duteil, Jean Courtecuisse, Jean Van Lierde, Jules Duquesne, Louis Alvergnat, Louis Beugniez, Lucien Croci, Marcel Guénault, Paul Guilbert, Pierre Loquet, Raymond Borme, Rémy Montagne, René-Georges Laurin, Roger Derry e Rolande Birgy.

Na Bélgica, a JOC, liderada por Victor Michel, deu forte apoio às ações de resistência à ocupação nazista. Dentre os integrantes da JOC que foram beatificados, pode-se citar: Marcel Callo.

Dia 7 de outubro 2017, realiza-se a Jornada Mundial pelo Trabalho Digno, que foi comemorado pela JOC – Juventude Operária Católica.

No Brasil

Os primeiros grupos da JOC no Brasil foram criados a partir de iniciativas esparsas ainda da década de 1920, e adquiriram maior importância a partir de 1947, quando foi realizada a Primeira Semana Nacional de Estudos, em São Paulo, em um momento no qual a Ação Católica Brasileira começava a se reorganizar. Em 1948, o Padre Cardjin visitou o Brasil e a JOC passou a ter uma organização nacional.

1906 – Primeiros movimentos para organizar a juventude trabalhadora, trazendo-a de volta para a prática religiosa;

1923 – Pe. Joseph Cardjin cria a JOC, em sua paróquia, Bruxelas;

1925 – É oficializada com apoio do Papa Pio XI;

1947 – Nasce a JOCI – em função do surgimento de outros grupos na Europa.

A JOC brasileira pode ser dividida em três momentos:

1948-1958: Fase de divulgação e recrutamento;

1959-1964: fase de “esperança”;

1964 a 1970: Fase de ruptura com o Estado e desarticulação.

No Brasil, a partir de 1950 a JOC começa a se envolver com as questões de classe. Em 52, nasce a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, sob a liderança de D. Helder Câmara, preocupada, também com a situação social-política do País.

Na década de 60 já existiam mais de 25 mil jocistas e o jornal da JOC alcançou a tiragem de 40 mil exemplares.

1961- II Congresso Mundial da JOC, o I Congresso Nacional de Jovens Trabalhadores e Congresso de Jovens Empregadas Domésticas;

1962 – Ação Católica Operária (ACO) / 1963 – Serviço de Cultura Popular;

1964 – A coordenação nacional foi presa e torturada;

1965 – Passou a viver na clandestinidade;

1970 – A JOC desapareceu graças a crescente repressão dos militares com o AI5;

1974 – O governo Geisel iniciou um processo de abertura política, buscando uma transição gradual do regime militar para um sistema democrático;

1979 – João Figueiredo assina a Lei da Anistia;

1983-1984 – Movimento “Diretas Já”;

1985 – Eleições indiretas;

1988 – Promulgação da Constituição do Brasil.