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Goiana

Alunas do interior de Pernambuco criam plataforma com IA para facilitar acesso a consultas no SUS

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Alunas do interior de Pernambuco criam plataforma com IA para facilitar acesso a consultas no SUS

Desenvolvido por estudantes de 15 anos, projeto Agenda Saúde começa a ser testado em uma unidade de saúde do Município de Goiana e nasceu da observação de um problema que faz parte da rotina de milhares de brasileiros: a espera para conseguir atendimento

A fila para marcar uma consulta em um posto de saúde é uma realidade conhecida por boa parte dos brasileiros. Em Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, duas adolescentes decidiram olhar para esse problema de outro jeito. Em vez de apenas discutir a demora, Heloise Milena Barbosa Gonçalves e Lara Sophia Belarmino da Silva, ambas com 15 anos, começaram a programar uma possível solução.

Alunas do 9º ano da Escola Municipal Irmã Marie Armelle Falguiéres, elas desenvolveram o Agenda Saúde, uma plataforma web criada para facilitar o agendamento de consultas e exames na rede pública. A ferramenta também abre espaço para que as unidades divulguem informações de interesse da população, como campanhas de vacinação e outros comunicados.

A ideia não ficou restrita à sala de aula. O projeto entrou em fase piloto no Posto de Saúde do Barro Vermelho, em Goiana, onde começa a ser apresentado aos profissionais e testado com um grupo de usuários. É o primeiro contato da ferramenta criada pelas estudantes com o cotidiano que inspirou seu desenvolvimento.

“A gente percebeu que muitas pessoas precisam enfrentar filas e sair de casa muito cedo só para tentar conseguir uma marcação. Pensamos em como a tecnologia poderia ajudar a tornar esse processo mais simples”, conta Heloise.

Lara explica que a proposta foi sendo construída a partir das dificuldades encontradas pela própria população. “Não queríamos criar uma plataforma só para apresentar como trabalho da escola. A ideia era fazer alguma coisa que pudesse ser útil de verdade. Quando começamos a desenvolver, fomos pensando no que o paciente precisaria encontrar para facilitar esse acesso”, afirma.

Da sala de aula para o posto de saúde

Para duas estudantes que ainda cursam o ensino fundamental, o caminho até uma aplicação web exigiu aprender uma linguagem que normalmente só aparece mais tarde na formação de quem decide seguir carreira em tecnologia. A Agenda Saúde foi desenvolvido utilizando HTML, CSS, JavaScript e PHP.

A inteligência artificial também entrou nesse processo, mas como ferramenta de apoio. As estudantes recorreram à engenharia de prompt para auxiliar na construção e no aperfeiçoamento de trechos do código. Na prática, precisaram aprender não apenas a pedir respostas à IA, mas a formular comandos, avaliar o que era apresentado, identificar problemas e fazer ajustes para que a aplicação funcionasse.

“No começo, algumas coisas pareciam muito difíceis, principalmente quando o código apresentava erro. Aos poucos, fomos entendendo melhor a programação e também como usar a inteligência artificial para nos ajudar, sem depender simplesmente da resposta que ela dava”, relata Lara.

Os monitores educacionais do Sistema de Ensino Dulino Gabriela Santos e Jonathan Miranda acompanharam de perto todas as etapas de desenvolvimento do projeto no Laboratório 7.0. Entre pesquisas, testes, erros e ajustes, os dois orientaram as estudantes na construção da plataforma, estimulando o aprendizado da programação e, sobretudo, a capacidade de encontrar soluções a partir dos desafios identificados por elas.

Para Gabriela, a transformação das estudantes durante o processo foi um dos pontos que mais chamou atenção. “Foi muito interessante perceber como elas foram ganhando autonomia. Não receberam uma solução pronta. Precisaram pesquisar, testar possibilidades, identificar erros e refazer caminhos até entender como a programação poderia ajudar a responder a uma dificuldade que elas enxergaram na própria comunidade”, afirma.

Jonathan destaca que a experiência também mostrou às estudantes que a tecnologia pode estar mais próxima da realidade delas do que muitas vezes se imagina. “Elas perceberam que programar não é apenas aprender códigos ou ferramentas. É também observar um problema, pensar em possibilidades e construir uma solução. Quando conseguem enxergar algo que desenvolveram funcionando na prática, passam a entender que também podem ocupar esse espaço e criar tecnologia”, ressalta.

O primeiro teste fora da escola

Agora, o desafio é descobrir como a plataforma se comporta longe dos computadores da escola. A fase piloto começou no Posto de Saúde do Barro Vermelho. A equipe responsável pelo projeto está apresentando o sistema aos profissionais da unidade e levantando as informações que poderão ser oferecidas à população.

Entre as possibilidades estão a disponibilização de horários para consultas e exames e a publicação de avisos sobre vacinação e outras ações realizadas pela unidade. A intenção é concentrar informações que hoje nem sempre chegam facilmente ao usuário.

Os primeiros testes com o público serão feitos com pais de estudantes de uma turma da escola. Eles receberão orientações e um vídeo explicativo sobre o acesso e o funcionamento do Agenda Saúde. A experiência deverá ajudar as estudantes a identificar dificuldades de navegação e pontos que ainda precisam ser aperfeiçoados.

Heloise reconhece que ver a plataforma chegar a uma unidade de saúde muda a dimensão do trabalho. “Quando a gente começou, era uma ideia. Agora, ver que outras pessoas podem usar aquilo que fizemos dá uma sensação muito diferente. A gente espera que funcione e que possa facilitar a vida de quem precisa do posto”, diz.

O piloto também será decisivo para avaliar questões que ultrapassam a programação, como a integração do Agenda Saúde à rotina dos profissionais, a atualização das informações e as adaptações necessárias caso a ferramenta avance para outras unidades.

Tecnologia que nasce de um problema real

O projeto chama atenção também pelo lugar de onde parte a solução. Em vez de uma empresa de tecnologia ou de um laboratório universitário, o Agenda Saúde nasceu dentro de uma escola municipal e foi desenvolvido por adolescentes que ainda estão concluindo o ensino fundamental.

Essa aproximação entre tecnologia e problemas do cotidiano tem sido uma das frentes trabalhadas na formação das estudantes. No caso da Agenda Saúde, a programação deixou de ser apenas conteúdo técnico e passou a responder a uma questão concreta da comunidade.

Há ainda outro componente: duas meninas de 15 anos ocupando um espaço historicamente marcado pela presença masculina. Para Heloise e Lara, desenvolver o sistema também abriu novas possibilidades sobre o que podem fazer no futuro. “Antes eu não imaginava que conseguiria desenvolver uma plataforma como essa. Foi um processo de aprender, errar, tentar novamente e perceber que a gente também pode criar tecnologia”, afirma Heloise.

A Agenda Saúde ainda está em fase de testes e não substitui, neste momento, os canais oficiais de marcação de consultas da rede municipal. O piloto no Barro Vermelho servirá justamente para verificar sua funcionalidade, ouvir profissionais e usuários e entender até onde a proposta pode avançar.

Por enquanto, a plataforma já produziu um resultado que não depende de código: colocou duas adolescentes de uma escola pública diante de um problema vivido por sua comunidade e mostrou a elas que tecnologia não precisa ser apenas algo que se consome. Também pode ser algo que se cria.