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Um imbróglio chamado piso salarial

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Publicado em 25.04.2010

Quase dois anos depois de virar lei, o piso nacional salarial do magistério continua gerando confusão entre governo, professores e prefeituras em todo o País

Demétrio Weber
Agência O Globo

BRASÍLIA – Quase dois anos após virar lei, a implementação do piso salarial nacional do magistério se tornou um mar de confusão.

Não há consenso sequer sobre o valor a ser pago aos professores em início de carreira: R$ 988, como diz a Confederação Nacional de Municípios (CNM), R$ 1.024,67, como entendem a Advocacia Geral da União e o Ministério da Educação (MEC), ou R$ 1.312,85, como reivindica a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).

Enquanto a CNTE acusa governos estaduais e municipais de pagarem menos do que deveriam, o MEC tem R$ 762 milhões para ajudar prefeituras a honrarem o piso. Mas não liberou um centavo. Motivo: nenhuma prefeitura teria batido à porta do ministério, segundo o ministro Fernando Haddad.

Para a CNM, a explicação é outra: o que impediria a ajuda federal seriam exigências administrativas do MEC. Entre elas, a de que o secretário municipal de Educação – e não o prefeito – seja o gestor dos recursos da pasta.

O ministério argumenta que o objetivo é evitar que recursos adicionais banquem despesas de outras áreas. “São requisitos mínimos para garantir a transparência do processo”, diz Haddad.

Segundo a CMN, a exigência cria despesas desnecessárias e deixa apenas 26 municípios aptos a pleitear a verba extra. “É tirar dinheiro da educação para colocar na parte burocrática”, rebate o presidente da CMN, Paulo Ziulkoski.

O imbróglio tem um ingrediente a mais: uma liminar concedida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) restringiu o alcance do piso, permitindo que gratificações de qualquer natureza entrem no cálculo do salário.

Pela letra da lei, em 2010 o piso salarial já deveria ser apenas o ponto de partida dos planos de carreira do magistério. Assim, os professores ganhariam acima desse valor mínimo, de acordo com sua titulação e outros critérios. O Supremo aceitou parcialmente uma ação direta de inconstitucionalidade ajuizada pelos governos de cinco Estados, mas há previsão de data para o julgamento do mérito.

Ministro Haddad sugere mesa de negociações
Publicado em 25.04.2010

BRASÍLIA – Em busca de uma saída, o ministro da Educação, Fernando Haddad, quer criar uma mesa de negociação para cuidar da implementação do piso.
A sugestão agradou ao presidente-executivo do movimento Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos: “Nada melhor do que uma mesa para apontar prós e contras. O que não se pode é ficar numa queda de braço”.

Ele observa que, na briga do piso, sobram críticas e faltam informações detalhadas sobre a realidade dos 5.564 municípios brasileiros.

A própria Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) admite o problema: no mês passado, a entidade promoveu um dia de paralisação em defesa do piso e divulgou balanço nacional restrito à situação das redes estaduais.
Segundo a CNTE, seis Estados não cumprem o piso: Ceará, Goiás, Pernambuco, Rondônia, Rio Grande do Sul e Tocantins. Além disso, 18 não teriam atualizado seus planos de carreira à luz da nova lei. A Confederação Nacional de Municípios (CNM) informou que um levantamento de dados está em curso.

Independentemente da decisão do Supremo, Haddad aposta que o piso acabará servindo de referência para os salários-base, ou seja, prevalecerá a redação original da lei. As gratificações incidirão sobre o valor mínimo.

(Jornal do Commercio).