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Tortura em delegacia de Glória do Goitá

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Publicado em 13.11.2008

Jovem afirma que policiais de Glória do Goitá, na Zona da Mata, aplicaram choque elétrico, colocaram saco plástico em sua cabeça e o ameaçaram

Carlos Eduardo Santos

Saco plástico na cabeça, choque elétrico e ameaça. A cena remonta aos tempos da ditadura ou mesmo a um trecho do filme Tropa de Elite – em que policiais aparecem agredindo presos. Um jovem de 18 anos, no entanto, diz ter sofrido essas torturas em uma unidade policial de Pernambuco.
O fato teria acontecido há uma semana na Delegacia de Glória do Goitá, na Zona da Mata. Os responsáveis pelas agressões seriam policiais civis. A Corregedoria-Geral da Secretaria de Defesa Social (SDS) está investigando o caso. A acusação surge em meio a denúncias de rituais de suplício praticados por PMs e divulgados através do You Tubesite de compartilhamento de vídeos na internet.

No caso de Glória do Goitá, o jovem – que trabalha como servente e preferiu não ser identificado – terminou na delegacia sob acusação de furto. Passou a noite do último dia 5, madrugada e manhã do dia 6 na unidade. Nesse período, diz ter vivido o maior pesadelo da sua vida. Sem comprovação do flagrante, foi liberado por volta das 11h. As escoriações pelo corpo chamaram a atenção do pai do servente, um agricultor de 64 anos.

Indignado com o que viu, o pai levou o rapaz ao fórum da cidade. Lá, os dois foram atendidos pela juíza Wilka Pinto Vilela. A magistrada afirmou ter ouvido o depoimento do servente e encaminhado o caso ao Ministério Público.
O promotor da cidade, Rivaldo Guedes de França, informou que recebeu o comunicado da Justiça e encaminhou anteontem ofício à Corregedoria-Geral da SDS.
O pai do jovem afirmou que a delegacia não quis fornecer o documento que autoriza a realização do exame de corpo de delito. Mesmo assim, decidiram seguir no último sábado para o Instituto de Medicina Legal (IML), no Recife.

O delegado de Glória do Goitá, Fernando Régis, garantiu que o jovem não sofreu agressões na unidade. Disse ainda que o servente foi ouvido e depois liberado porque não houve configuração de flagrante. “Ele continua respondendo por furto qualificado. As acusações que ele faz é para se defender do crime que cometeu. E faz da pior maneira possível, acusando a polícia de forma mentirosa”, concluiu.

ENTREVISTA » SERVENTE
“Eu passei a noite toda apanhando”
Publicado em 13.11.2008

O servente de 18 anos diz ter vivido o pior pesadelo da vida. Garante que foi preso injustamente por um crime que não cometeu. Tanto, que ainda não explicaram a ele porque o liberaram depois de passar a noite inteira na unidade policial, mesmo sem configurar o flagrante.

Na Delegacia de Glória do Goitá, na Zona da Mata, passou por momentos de terror.

JC – Como você foi parar na delegacia?

SERVENTE – Eu estava trabalhando em uma casa, limpando as telhas. No outro dia, iria pintar. Eu e mais dois meninos. Aí sumiram R$ 406 da dona da casa. Os dois me acusaram, dizendo que eu que tinha pego o dinheiro.

JC – Você conhecia esses dois rapazes?

SERVENTE – Sei apenas o nome de um deles. Conheci os dois lá, fazendo o serviço.

JC – Quem lhe levou para a delegacia?

SERVENTE – Esses dois. Me pegaram, deram em mim e me levaram para a praça no Centro da cidade. Ficaram dizendo para todo mundo que estava lá que eu era ladrão, tinha roubado dinheiro, e depois me levaram para a delegacia.

JC – O que aconteceu com você lá?

SERVENTE – Já foram dando tapa em mim.

JC – Quem?

SERVENTE – Um agente que tem na delegacia. Ficou me acusando o tempo inteiro.

JC – Depois fizeram o que com você?

SERVENTE – Mandaram eu sentar na cadeira. Me deram chute e muita lapada. Queriam que eu dissesse de todo jeito que tinha roubado o dinheiro. Mas eu repetia que não tinha sido eu. Teve uma hora que colocaram um plástico na minha cabeça. Uma sacola de plástico, para eu não respirar. Fiquei muito nervoso, desesperado, porque não podia respirar. Foi horrível. Também me bateram com um fio de telefone.

JC – Durante todo o momento você ficou nessa cadeira?

SERVENTE – Não. Depois me colocaram na cela e mandaram tirar a roupa. Lá na cela, colocaram um balde de água e mandaram colocar o pé dentro. Não coloquei. Aí um deles jogou a água em mim. O outro disse que ia dar choque se eu não dissesse que tinha roubado o dinheiro. Pegaram um pedaço de fio e descascaram. Aí começaram a dar choques em mim. Disseram que iam me levar para o meio do mato, mas não levaram. Graças a Deus.

JC – Quantos participaram da tortura?

SERVENTE – Eram dois, o agente e um outro que não é policial. Trabalha lá fazendo faxina e comida para os agentes. Esse ficou me segurando enquanto o outro batia. O delegado também chegou, mas só deu uma tapa no meu rosto. Perguntou também se eu aguentava uma surra de pau.

JC – Quanto tempo durou a sessão de agressão?

SERVENTE – Não sei. Só sei que cheguei à delegacia no começo da noite. Eu passei a noite toda apanhando. Depois me deixaram sozinho na cela, sem roupa e sem comer.

JC – O que você espera que aconteça agora?

SERVENTE – Eu estava com medo, mas agora quero levar isso até o fim. Quero que essas pessoas sejam punidas. Não fiz nada e não merecia esse tratamento. Me maltrataram muito. Deram demais em mim.

ASSISTA AO VÍDEO: