Publicado em 13.11.2008
Jovem afirma que policiais de Glória do Goitá, na Zona da Mata, aplicaram choque elétrico, colocaram saco plástico em sua cabeça e o ameaçaram
Carlos Eduardo Santos
ENTREVISTA » SERVENTE
“Eu passei a noite toda apanhando”
Publicado em 13.11.2008
Na Delegacia de Glória do Goitá, na Zona da Mata, passou por momentos de terror.
JC – Como você foi parar na delegacia?
SERVENTE – Eu estava trabalhando em uma casa, limpando as telhas. No outro dia, iria pintar. Eu e mais dois meninos. Aí sumiram R$ 406 da dona da casa. Os dois me acusaram, dizendo que eu que tinha pego o dinheiro.
JC – Você conhecia esses dois rapazes?
SERVENTE – Sei apenas o nome de um deles. Conheci os dois lá, fazendo o serviço.
JC – Quem lhe levou para a delegacia?
SERVENTE – Esses dois. Me pegaram, deram em mim e me levaram para a praça no Centro da cidade. Ficaram dizendo para todo mundo que estava lá que eu era ladrão, tinha roubado dinheiro, e depois me levaram para a delegacia.
JC – O que aconteceu com você lá?
SERVENTE – Já foram dando tapa em mim.
JC – Quem?
SERVENTE – Um agente que tem na delegacia. Ficou me acusando o tempo inteiro.
JC – Depois fizeram o que com você?
SERVENTE – Mandaram eu sentar na cadeira. Me deram chute e muita lapada. Queriam que eu dissesse de todo jeito que tinha roubado o dinheiro. Mas eu repetia que não tinha sido eu. Teve uma hora que colocaram um plástico na minha cabeça. Uma sacola de plástico, para eu não respirar. Fiquei muito nervoso, desesperado, porque não podia respirar. Foi horrível. Também me bateram com um fio de telefone.
JC – Durante todo o momento você ficou nessa cadeira?
SERVENTE – Não. Depois me colocaram na cela e mandaram tirar a roupa. Lá na cela, colocaram um balde de água e mandaram colocar o pé dentro. Não coloquei. Aí um deles jogou a água em mim. O outro disse que ia dar choque se eu não dissesse que tinha roubado o dinheiro. Pegaram um pedaço de fio e descascaram. Aí começaram a dar choques em mim. Disseram que iam me levar para o meio do mato, mas não levaram. Graças a Deus.
JC – Quantos participaram da tortura?
SERVENTE – Eram dois, o agente e um outro que não é policial. Trabalha lá fazendo faxina e comida para os agentes. Esse ficou me segurando enquanto o outro batia. O delegado também chegou, mas só deu uma tapa no meu rosto. Perguntou também se eu aguentava uma surra de pau.
JC – Quanto tempo durou a sessão de agressão?
SERVENTE – Não sei. Só sei que cheguei à delegacia no começo da noite. Eu passei a noite toda apanhando. Depois me deixaram sozinho na cela, sem roupa e sem comer.
JC – O que você espera que aconteça agora?
SERVENTE – Eu estava com medo, mas agora quero levar isso até o fim. Quero que essas pessoas sejam punidas. Não fiz nada e não merecia esse tratamento. Me maltrataram muito. Deram demais em mim.






