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Sadia frustra sonhos de uma família

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Publicado em 12.08.2010

Acreditando estar contratado, Joselito pede demissão do antigo emprego e, com a mulher e os filhos, aposta tudo na mudança. Tudo deu errado

Adriana Guarda

O sonho do emprego com carteira assinada em uma multinacional durou menos de 24 horas para Joselito Francisco de Paula. Na tarde do último dia 2, o trabalhador despachou sua mobília que seguiria para Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, onde dias depois ele também desembarcaria com toda a família para trabalhar na fábrica da Sadia. No dia seguinte, recebeu um telefonema informando que não seria mais contratado.

Candidato a uma vaga de operador de produção 1, Joselito já tinha vencido várias etapas da seleção: passou na entrevista, entregou a documentação solicitada e fez os exames médicos admissionais. “Minha esposa pediu demissão de um emprego de quatro anos, tiramos nossos três filhos da escola, alugamos nossa casa e gastamos numa festa de despedida para a família (que só voltaríamos a rever dois anos depois). Tudo isso para depois a Sadia dizer que desistiu de nos contratar, sem prestar maiores esclarecimentos”, reclama Joselito.

Desempregado há cinco anos, o trabalhador viu pela TV o anúncio de vagas abertas para operador industrial. “Quando cheguei no Sistema Público de Emprego e Renda da Prefeitura do Recife fiquei sabendo que as oportunidades eram na fábrica da Sadia em Lucas do Rio Verde. Também tive informação de que minha esposa poderia trabalhar na empresa e até minha filha de 16 anos, como menor aprendiz. Era a oportunidade de vida que esperávamos. Mas acabou se revertendo em um grande transtorno, decepção e prejuízo”, lamenta.

Joselito conta que, com receio do extravio da mudança, prestou queixa na Delegacia de Abreu e Lima e foi, sem sucesso, até o Sistema Público para tentar obter alguma explicação.

“A mudança voltou, mas quero que a Sadia me ofereça uma reparação. Passei dias sem nada dentro de casa, dormindo com a minha família em colchões emprestados pelos vizinhos enquanto meus móveis seguiam para Mato Grosso. Tive que desfazer o acordo de aluguel da casa e agora, ao invés de um, somos dois desempregados, porque minha mulher deixou o trabalho para embarcar comigo nessa tentativa de ter uma vida melhor”, diz.

Procurada pela reportagem do JC, a Sadia respondeu, por meio de sua assessoria de comunicação, que a família de Joselito não seguiu para Mato Grosso porque o “candidato não foi aprovado nas últimas etapas do processo seletivo para contratação de funcionários para atuar na unidade de Lucas do Rio Verde. Por essa razão, em momento algum a empresa entrou em contato diretamente com o candidato para confirmar a contratação”, diz o texto do comunicado enviado por e-mail.

Ainda segundo a nota, “por um equívoco, os dados do Sr. Joselito (inclusive endereço) foram incluídos na lista da transportadora responsável por realizar a mudança dos candidatos aprovados. Quando soube do equívoco, a Sadia entrou em contato com o Sr. Joselito para explicar a situação e desculpar-se por qualquer transtorno causado”. O trabalhador afirma que não recebeu nenhum telefonema de funcionário credenciado pela empresa e que o aviso de que não seria contratado foi feito pelo Sistema Público da PCR. Questionada pelo JC, a Sadia não respondeu se poderá indenizar o candidato pelos problemas causados.

Na nota encaminhada, a Sadia também faz questão de enfatizar que o “processo seletivo para contratação na região segue normalmente e está alertando os candidatos a aguardarem a confirmação final da empresa, que se dá via telefone, antes de tomarem providências de desligamento da cidade”. “Se entreguei todos os documentos, fui aprovado nos testes e vieram buscar minha mudança, fica óbvio que estou contratado. Inclusive questionei quando a carteira profissional seria assinada e fui informado que antes de embarcarmos nos ônibus rumo a Lucas do Rio Verde, o documento seria carimbado pela empresa”, afirma Joselito.

No ano passado, o JC publicou reportagem sobre a saga dos nordestinos que foram trabalhar na Sadia em Lucas do Rio Verde. Intitulada Oportunidade e frustração, a série mostrou a insatisfação dos contratados, que faziam o caminho de volta depois de sofrerem humilhações e terem direitos desrespeitados. Muitas das queixas, inclusive de jornada extenuante, foram parar nos Ministérios Públicos e na Justiça de vários Estados da região.

A alta rotatividade é um dos reflexos da insatisfação dos contratados. A empresa, que por um tempo chegou a suspender as contratações em Pernambuco, por exemplo, retomou o processo seletivo, contando mais uma vez com a intermediação da Prefeitura do Recife.
(Jornal do Commercio).