
Walther Moreira Santos leva seu celebrado “O ciclista” para a final do prêmio
MÔNICA MELO
Dois autores de Pernambuco estão entre os finalistas na disputa pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2009. Concorrem na categoria “Melhor livro do ano”, relativo a 2008, Ronaldo Correia de Brito, com o romance “Galiléia” (Editora Objetiva), e Walther Moreira Santos, respaldado por “O ciclista” (Autêntica Editora).
O “pernambucano que nasceu no Ceará”, como Ronaldo se considera, credita a presença do seu livro entre os 10 finalistas ao prêmio de R$ 200 mil ao caráter arrebatador e à boa edição da obra. Além de se tratar, segundo ele, de uma leitura impactante, capaz de proporcionar uma visão que contrasta os mundos arcaico e contemporâneo. Assim como não constituiu surpresa para o autor o fato de o livro constar na lista dos principais concorrentes a um dos mais importantes prêmios do gênero no Brasil, o resultado não surtiu inusitado para quem acompanha a literatura produzida por Correia de Brito. O peculiar reside somente no fato de se tratar do seu primeiro romance, uma experiência exitosa em que o autor envereda por um universo que ele conhece bem, o Sertão dos Inhamuns, no Ceará.
No entanto, a ambientação da obra transcende tal espaço físico. O sertão de Correia de Brito é livre de elementos folclóricos, de fauna e flora característicos. “Trago um olhar desmontador do sertão de José Lins do Rego, Guimarães Rosa e Ariano Suassuna”, pontua o escritor. A partir de uma narrativa visual, o autor traz os personagens Ismael, Davi e Adonias em um retorno inevitável ao ambiente arcaico e às mazelas familiares dos quais sempre buscaram se afastar.
Dessa forma, a volta ao “sertão” mais parece constituir o ensejo para viagens interiores de tais indivíduos. São essas páginas carregadas da obscuridão de cada “integrante” da fazenda Galiléia, colocada à tona por intermédio do narrador Adonias, que traduzem o mérito do autor em integrar o grupo seleto de concorrentes ao Prêmio. Elas denunciam a destreza de Correia de Brito em fazer dessa penetração nas particularidades dos familiares o trunfo que motiva o leitor a percorrer a obra necessariamente por cada linha.
Já Walther Moreira Santos acredita que sua forma espontânea de escrever e o nível de envolvimento dele no projeto levaram “O ciclista” a constar na lista de finalistas. Trata-se de um romance que aborda o apego e a perda, a partir de uma mistura de psicanálise, budismo e sexualidade. “Passei pela experiência de perda e deixei fluir os sentimentos na construção do romance. Porque sou um ‘sentidor’ e escrevo”, assinala Walther. O que o também dramaturgo chama de “forma espontânea de construir” foi considerada pela comissão julgadora do Primeiro Prêmio José Mindlin de Literatura, conquistado por ele, uma trama permeada por ousadas estratégias narrativas, um exercício de destreza e imaginação, afinal.
Concorrendo ao lado de nomes consagrados, como José Saramago e Moacyr Scliar, Ronaldo Correia de Brito – que pratica a Medicina e conquistou prestígio com as obras de contos “Faca” e “Livro dos homens” – e Walther Moreira Santos – com 13 livros premiados – irão conhecer o resultado do Prêmio no dia 3 de agosto, em cerimônia no Museu da Língua Portuguesa.
(Folha de Pernambuco).






