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Recife

Qual voz das ruas?

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Qual voz das ruas?

Juliano da Unicap

por Juliano Domingues da Silva

A mobilização de rua é um dos elementos fundamentais do confronto político. A depender da sua dinâmica e dimensão, pode ser decisiva. Como pensar o papel de manifestações pró-impeachment no atual contexto? Ao abordar o tema, a memória recente nos remete ao início dos anos 1990. A pressão de entidades sindicais e estudantis foi condição necessária para a renúncia do então presidente Fernando Collor. No entanto, em relação à chamada “voz das ruas”, qualquer comparação entre aquele e o atual contexto merece cautela, sob risco de se configurar mera ilusão ou desejo – o chamado wishful thinking.

É necessário um debate conceitual sobre movimentos sociais, cuja reflexão diz respeito a estudos sobre ação coletiva conflituosa. Ela ocorre quando o não atendimento de necessidades de determinado grupo o motiva a entrar em confronto com autoridades, seja de maneira breve ou sustentada. O confronto tende a ser incentivado quando a esses indivíduos é negado acesso regular a bens e serviços. A privação produz propósitos comuns em torno dos quais as pessoas se organizam.

O Vem Pra Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL) organizaram protestos em, ao menos, 74 cidades no dia 13. A denominação “Esquenta para o Impeachment” sugere um propósito comum, o mesmo de outras três iniciativas realizadas este ano. Nas capitais, 76 mil pessoas foram às ruas, quantidade bem inferior à de 15 de março (1,7 milhão). A adesão menor gera questionamentos. Variáveis podem ser levantadas, uma das quais relativa à dinâmica e ao sentido dessas ações.

Redes sociais digitais são a principal ferramenta de mobilização dos dois grupos. Embora reduza o custo de informação, essa estratégia ocorre no ambiente difuso da internet e tende a fragilizar a coesão entre manifestantes. Além disso, dados indicam que manifestantes pró-impeachment, na maioria, não se enquadram no grupo ao qual historicamente é negado acesso regular a bens e serviços. Ao contrário. Assim, há certa dificuldade em identificar objetivos e desafios compartilhados. Não institucionalizadas, essas manifestações têm a brevidade como característica.

MBL e Vem Pra Rua parecem não possuir características próprias de movimentos sociais. Por isso, qualquer comparação com a década de 1990 não passará de wishful thinking. Ao menos por enquanto.

 

por Juliano Domingues da Silva, professor da Unicap. Especial para o Blog.