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Portugueses dão adeus a Saramago em Lisboa

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Publicado em 21.06.2010

Milhares de conterrâneos do único Nobel de Literatura da língua portuguesa se despedem do escritor morto na sexta-feira e cremado ontem

LISBOA – As alamedas do Cemitério do Alto de São João, em Lisboa, eram estreitas para acomodar centenas de admiradores que deram o último adeus ao único escritor português premiado com o Nobel da Literatura. Eram em grande parte militantes comunistas idosos, que aplaudiam sem pausa, agitavam bandeiras brancas e exemplares de livros, jogavam cravos vermelhos – o símbolo da revolução que derrubou, em abril de 1974, o regime salazarista – e gritavam energicamente: “Saramago, a luta continua! Saramago, o povo está contigo!”

Em contraste com o clima discreto do velório, no dia anterior, a cremação do escritor ontem levou o público ao delírio. Houve pranto convulsivo quando a fumaça negra começou a sair da chaminé. E revolta coletiva contra o presidente Aníbal Cavaco Silva, que não interrompeu as férias nos Açores e só ontem enviou o chefe da Casa Civil à Câmara Municipal, para apresentar rapidamente, antes da cerimônia de despedida, suas condolências à família.

“Ele é um homem pequeno. Não conseguiu prestar homenagem ao grande homem que foi Saramago”, gritava Antonio dos Santos Sabino, militante do Partido Comunista Português, xingando o presidente.

Dos Açores, Cavaco Silva minimizou a polêmica, classificada por ele de estéril, e disse que fez o que lhe competia como presidente: divulgou uma nota oficial prestando homenagem à obra literária do escritor, enviou uma coroa de flores e decretou dois dias de luto. Como pai e avô, acrescentou o presidente, não poderia quebrar a promessa, feita há tempos à família, de mostrar “as belezas da região”: “O que um chefe de Estado deve fazer é diferente daquilo que deve ser feito pelos amigos ou pelos conhecidos. Devo dizer que nunca tive o privilégio na minha vida, se me recordo, de alguma vez conhecer ou encontrar José Saramago”.

Antes de o corpo seguir cortejo para o cemitério, o escritor foi homenageado numa cerimônia na Câmara, onde o prefeito socialista, Antonio Costa, desfez outra polêmica, garantindo que as cinzas de Saramago ficarão em Portugal, especificamente em Lisboa. “Saramago regressa à cidade onde trabalhou, onde escreveu, onde presidiu a assembleia municipal de Lisboa e criou a fundação a que deu o seu nome e que ficará instalada, como era seu desejo, na Casa dos Bicos”, anunciou.

O salão nobre da Câmara, onde era velado o corpo do escritor, sempre com dois cravos vermelhos sobre o peito, lotou, com amigos e políticos. Do lado de fora, centenas de pessoas acompanhavam a cerimônia por um telão.

“Saramago sonhou com um mundo em que os fortes eram mais justos, e que os justos eram mais fortes”, destacou a vice-presidente do governo espanhol, Maria Teresa de La Vega. “Ele não tinha fé em Deus, mas certamente Deus teve fé nele”, afirmou a ministra da Cultura de Portugal, Gabriela Canavilhas.

Tanto na sede da Câmara quanto no cemitério, portugueses se despediram de Saramago com longos aplausos. Mas, de Viseu, no norte, veio uma voz dissonante, a do herdeiro do trono português, Duarte Pio Bragança, que, sem citar o nome do escritor, criticou as homenagens. “É simbólico que neste momento Portugal homenageie como um grande herói nacional um homem que é contra Portugal”, disse o duque de Bragança.
(Jornal do Commercio).