No ano de 1954, Zé Hortência foi o único a não pagar o foro de seis mil cruzeiros do Engenho Galileia. Não pagou o do seu bolso, posto que a soma era inteirada pela paga de cada uma das 140 famílias. O dono do engenho recebeu quase tudo, mas o brim cáqui deu conta de um oco no bolso fundo de sua calça. Com a mão direita no bolso, percorreu com os dedos as notas dobradas; palpando-as, sentiu a desinquietação nos dedos. Não ameaçou Zé Hortência de expulsão, mas olhou para a piçarra de acesso à estrada de terra batida; depois para as pernas do foreiro, ajuizando-as aprumadas para o rumo da retirância.
Todo o engenho fora avaliado em 10 mil cruzeiros. No cartório, o tabelião dera fé ao dito do proprietário, inda que sem a certidão de medição do agrimensor. E o foro, anual, pago acima da metade do ajuizado por um sesmeiro.
“Como é que nós vamos fazer!? – inquiriu-se a mulher de Zé Hortência. “Não vamos fazer… Quem vai fazer é a Liga.”! – ajuntou ele.
Zé dos Prazeres julgou-o de alto a baixo, julgando-o o autor de um propósito pioneiro. “Aprovo!”
Na reunião do Partido, mais que a novidade, distinguiu em Zé Hortência um militante posto no prumo do Engenho Galileia. “Se tudo der certo, as 140 famílias vão se sentir abrigadas no Partido Comunista.” Zé Hortência, confiando no presidente da Liga Camponesa, confiou-se na guarda do Partido.
No mesmo ano, foi fundada a Sociedade Agrícola de Plantadores e Pecuaristas de Pernambuco. Na vice-presidência, Zezé da Galileia. Na presidência, Oscar Beltrão, dono do engenho; inda que presidente honorário, o proprietário não se urdiu nas conjuras de expropriação de sua própria terra. Os galileus, ajuizando-se com pouca força, queriam-no ali sem despregar os olhos de seus passos.
No mesmo cartório do registro da escritura do engenho, a SAPPP registrou-se como sociedade para auxílio funerário, construção de escolas e compra de enxadas, foices, estrovengas. A contratação de uma professora para o ensino sob as telha de uma casa de farinha, foi proibida por Oscar Beltrão.
– Mas isso é por lei – objetou Zé dos Prazeres.
– O senhor não é daqui!- o proprietário vira em Zé dos Prazeres um comunista, no discurso de posse na diretoria.
Também proibiu o desconto de despesas com enterros de morto do engenho, na paga do foro. Beltrão chamou a polícia. A diretoria foi intimada à delegacia. Afastou-se de vez, ele, quando Murta disse ao repórter que viera de São Paulo: “A gente enterra defunto com mortalha de papel.”
* Menção honrosa dos Prêmios Literários da Cidade do Recife, com o livro Um presente para o papa e outros contos. Integra as antologias de contos Recife conta o Natal e Panorâmica do conto em PE.






