Visitas: 9

A Voz da VitóriaA Voz da Vitória
Recife

Morte de Lamarca completa 40 anos

  • Lissandro Nascimento
Morte de Lamarca completa 40 anos

MEMÓRIA Capitão do Exército que desertou para combater o regime militar morreu aos 33 anos, no Sertão da Bahia

Jornal do Commercio

Madrugada de 24 de janeiro de 1969, 4º Regimento de Infantaria de Quitaúna, Osasco, São Paulo. Um fato inusitado surpreende o comando militar ao chegar para o dia de serviço e o Exército Brasileiro. Com 63 fuzis FAL, três metralhadoras leves e muita munição, o capitão Carlos Lamarca – instrutor de tiros para caixas de bancos, num período de assaltos da guerrilha urbana para financiar o movimento armado –, o sargento Darcy Rodrigues, o cabo José Mariani e o soldado Roberto Zanirato desertam, fogem numa Kombi e ingressam na clandestinidade da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), uma das organizações da esquerda armada que combatia o regime militar. Morreu dois anos e meio depois, em 17 de setembro de 1971, há 40 anos, apontado pela ditadura como “o mais perigoso líder terrorista do País”.

Decidido a utilizar a formação militar no treinamento da militância para a guerrilha rural, lutou dois anos e meio por um sonho de sociedade socialista, em meio a uma fuga permanente, ideias confusas – consequência de uma formação ideológica deficiente – e uma paixão arrebatadora pela psicóloga, companheira e guerrilheira marxista Iara Iavelberg. Localizado em condições sub-humanas, desnutrido e esfomeado, aos 33 anos, e sob cerco – em Pintada, região de Brotas de Macaúbas, Sertão da Bahia –, é executado por uma patrulha do regime militar. A autópsia, segundo versão corrente, encontrou no estômago e nos intestinos do capitão apenas capim. A morte chegou um mês após Iara – filha de rica família de judeus paulistas – morrer, em 20 de agosto, também sob cerco – suicídio, na versão oficial –, em um apartamento do bairro de Pituba, Salvador.

Nascido em 1937, filho de um sapateiro e uma dona de casa, no Morro de São Carlos, no Estácio, Rio de Janeiro, em meio a sete irmãos, Carlos Lamarca ingressou no Exército para realizar um desejo de adolescente. Fez a Academia das Agulhas Negras, no Rio, formadora de oficiais. Incorporado ao Exército, serviu na 7ª Companhia do Batalhão Suez, em 1962, nas Forças de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU) na região de Gaza, Palestina. Nos 18 meses em Suez, impressionado com a pobreza da região, despertou para as ideias socialistas, aprofundadas em Quitaúna, instruído pelo marxista sargento Darcy Rodrigues.

Antes de desertar, mandou a mulher Maria Pavan e os dois filhos para Cuba, onde viveram por dez anos. Na VPR, conheceu Iara, a quem dedicou uma paixão que se confundiu com a vida dedicada a um sonho socialista. Desarticulada a VPR, lutou pela VAR-Palmares e pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Em 2007, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça reconheceu a sua condição de perseguido político e o promoveu à patente de coronel do Exército Brasileiro.