ENTREVISTA » LAURO DE OLIVEIRA
Publicado em 16.01.2011
Fabianna Freire Pepeu
fabiannafreirepepeu@gmail.com
Embora seja graduado em filosofia e didática, o pernambucano Lauro de Oliveira – hoje aposentado – sempre foi homem de senso prático. Preferiu estabilidade financeira em lugar de seguir uma carreira filosófica.
Casado há exatos 57 anos com a poeta Marilda Vasconcelos de Oliveira, com quem teve cinco filhos, trabalhou no Banco do Brasil, Banco Central do Brasil, foi diretor do extinto Bandepe, tendo participado também da Comissão de Justiça e Paz, criada em 1967 em defesa da justiça social. Apesar de escutar pouca música, entre as suas preferências, destacam-se Chico Buarque, Ella Fitzgerald e Sara Vaughan. Quando o tema é literatura – e ler é sua grande aventura – cita Dostoiévski, Tolstói, Gabriel García Márquez e Isabel Allende.
Entre os brasileiros, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, e, claro, o escritor pernambucano Osman Lins, com quem travou boa amizade, tendo lançado, inclusive, pela Bagaço, um longo ensaio intitulado Osman Lins: vocação ética, criação estética.
O livro traz capa assinada pelo artista plástico Gil Vicente, que é seu filho. Lauro, no momento, trabalha em um ensaio sobre o escritor João Vasconcelos (seu sogro).
Ele conversou com o JC sobre sua relação com Osman Lins, seu livro e a saudade das antigas e boas resenhas literárias.
JORNAL DO COMMERCIO – Embora graduado em filosofia, boa parte de sua vida foi dedicada a ofícios distantes daqueles ligados à reflexão filosófica, letras e literatura, a exemplo dos cargos que ocupou em instituições financeiras. Se possível fosse, numa volta ao tempo, o senhor faria o mesmo percurso ou teria se dedicado antes à arte da escrita, à arte do ensaio e à literatura?
LAURO DE OLIVEIRA – Acho que faria o mesmo percurso. Sempre tive muito senso prático. A literatura não me daria estabilidade financeira, o que o Banco do Brasil sempre me deu.
JC – Como se deu (em que época) o seu encontro com o escritor Osman Lins? Por quanto tempo conviveram no Banco do Brasil? É verdade que, nos anos 1960, quando ele foi transferido para São Paulo, trocaram muitas cartas? O senhor pensa em publicar essa correspondência?
LAURO – Estreitei minha amizade com Osman quando trabalhamos juntos no Banco do Brasil, no mesmo setor – seção de cadastro, no início da década de 1950. Nosso chefe era bom e tolerante. Mantínhamos rigorosamente em dia nossas obrigações bancárias, e isto era suficiente para nosso chefe. Sobrava tempo e então conversávamos muito, Osman e eu, sobre livros e literatura. Na década de 1960, logo depois da primeira viagem de Osman à Europa, ele solicitou transferência para São Paulo. Nossa amizade continuou. Começou a correspondência entre ele e eu. Tenho todas as cartas minhas para ele e dele para mim. Penso um dia publicá-las. Futuramente.
JC – O senhor diria que ter conhecido Osman Lins, ter tido com ele uma relação de amizade, modificou a sua atitude em relação à leitura da obra de Osman, facilitando ou dificultando essa aproximação?
LAURO – O fato de sermos amigos não interferiu na leitura de sua obra, apenas aumentou o interesse natural pelos seus livros. Ele tem alguns livros difíceis, como, por exemplo, Avalovara, porém nunca tive dificuldades em entender os livros de Osman.
JC – Durante muito tempo, nas universidades, um bom número de estudantes dedicou pesquisa e estudo à obra de Osman Lins. Depois, houve uma queda no interesse pela produção. O senhor diria que essas flutuações são naturais – apesar de o mesmo não ocorrer em relação à produção da escritora Clarice Lispector, por exemplo – ou atribuiria esse afastamento a algum tipo de dificuldade na relação com o texto “osmaniano”?
LAURO – Acredito que essa flutuação de interesse por um autor ou outro é natural. Não conheço tão bem a obra de Clarice Lispector, então não poderia compará-la a de Osman. O importante é que a qualidade da literatura de Osman fala por si e os leitores acabam voltando. No Sudeste do Brasil, ele é e sempre foi lido e pesquisado. Osman nunca foi um escritor hermético. Queria que seus livros fossem lidos por todos.
JC – Seu ensaio, intitulado Osman Lins: Vocação ética, criação estética, publicado pelas Edições Bagaço, não é um livro fácil. Ele pressupõe que se conheça pelo menos uma parte da produção literária do autor de Avalovara. Também pede ao leitor que domine nomenclatura ligada ao mundo das letras. Poderá por essas razões ficar restrito a professores e estudantes de literatura, filosofia e aos raros espíritos bem formados?
LAURO – Na verdade, tenho horror a essa nomenclatura de que você fala, usada em alguns ensaios. Minha intenção era ser bem claro e evitá-la. Se ela aparece mais do que eu pretendia, talvez seja porque a incorporei, inconscientemente, por conta dos inúmeros ensaios e teses que já li sobre Osman.
JC – Na apresentação do seu ensaio, o senhor avalia que, hoje, os jornais fazem apenas resenhas de livros, “quase sempre de maneira superficial e medíocre”. Não será isso resultado de um período marcado pela velocidade, no qual todos (ou quase todos) são multitarefados, retrato de um tempo que não permite ou pouco permite a formação de intelectuais de visão humanista ampla a exemplo de Tristão de Atahyde (Alceu Amoroso Lima) ou do advogado e jornalista Álvaro Lins – para usar os mesmos nomes que o senhor citou?
LAURO – Concordo que as resenhas literárias sejam resultado da muita velocidade do mundo atual. Sinto saudade dos antigos rodapés literários, de bons escritores, como Tristão de Athayde e Álvaro Lins. Eles me ensinaram muita coisa de literatura.






