por Hely Ferreira*
Certa vez, ouvi de um amigo que as mães não deveriam morrer. Será que elas concordam com a ideia? E se, para que o filho viva, ela tiver que perecer? Não foi assim, certamente, que o rei Salomão, no ápice de sua sabedoria, resolveu a querela entre duas mulheres que alegavam simultaneamente a maternidade do mesmo filho. Mas dá no mesmo, já que renunciar a um filho por amor equivale a condenar-se a morrer todos os dias, até o último.
O amor das mães é algo incomparável. Eu, que a perdi há pouco, pude experimentar durante 42 anos a expressão mais plena do sentimento materno, que ela possuía bem aguçado, e sei que sentirei a sua ausência pelo resto da vida, embora não possa se comparar ao que ela sentiria se tivesse perdido o seu único filho.
Durante muitos anos a professora Hezir Bezerra (era assim que ela era conhecida) consagrou sua vida à educação e entendia que a carreira não deveria ter nenhuma relação com o desejo de acumular óbolos. Quem abraça o magistério, deve ter em mente que foi convocado para exercer a mais importante das atividades – educar para a vida, instruir e dividir o conhecimento como um bem comum.
Recordo de uma história que ela gostava de contar. Certa vez, ouviu um advogado criticando um colega por este não ter colocado na porta do escritório o título de doutor, mas o de professor. A resposta foi a seguinte: desde quando doutor é mais que professor? Minha mãe foi uma
professora constante, com ela aprendi a aplicar o princípio de alteridade; aprendi que devemos buscar ser justos em todas as nossas atitudes; aprendi também a amar a Deus acima de tudo e nunca tangenciar diante daquilo que acreditamos.
Sobre sua conduta como mãe, sou totalmente suspeito para falar, mas quem a conheceu é sabedor de sua dedicação e carinho, sem, contudo, deixar de ser enérgica quando a necessidade exigia. A sinceridade era algo inerente as suas atitudes, ficava ao meu lado quando eu tinha razão, mas quando entendia que a minha postura estava equivocada, jamais deixou de expressar uma necessária atitude crítica, que talvez fosse própria do seu espírito de educadora.
Pessoas como a professora Hezir, contudo, nunca partem para sempre; são, antes, como um ator, que morre em uma peça e ressurge em outra.
P.S. Meus agradecimentos aos médicos Mauro Grego, Carlos Selva, Luciene, Rogério Ferraz, Ana Rita e a toda equipe de enfermagem do HSE, em especial a Janaina (Técnica em Enfermagem), Cleide, Yara, Rivaldo e Sil pelo desvelo com que cuidaram dela nos seus últimos dias.

por Hely Ferreira,
*Cientista político.







