HEGEMONIA E LUTA DE CLASSES NA DISPUTA POLÍTICA BRASILEIRA (Parte I)
por Daniel Max
A concepção de hegemonia em Gramsci pode servir como um bom referencial teórico para analisar o momento atual da vida política nacional.
Assistimos a uma batalha sem tréguas, uma luta encarniçada que parece não ter fim no cenário político nacional. Essa luta será mais ou menos duradoura, dependendo do que está em jogo. Entretanto, essa contenda longe de ser vista como uma trama tipicamente verde amarela de uma elite conservadora que disputa a presidência e o controle político das unidades da Federação, deve ser encarada como parte de um processo de luta entre classes.
Vários referenciais teóricos podem ser utilizados numa primeira análise do cenário político atual e, certamente, teremos muito que discutir e associar teoricamente ao resultado eleitoral e a projeções conjunturais diferenciadas.
Neste sentido, se tomarmos como referência teórica, por exemplo, a visão Gramsciana, para discutir o processo de disputa política no Brasil, teremos um bom debate sobre a luta de classes, para isso é indispensável compreender o que Gramsci classificou, com muita propriedade, de construção da hegemonia e do bloco histórico na conformação de forças na sociedade.
A constituição de uma hegemonia é um processo historicamente longo, que ocupa os diversos espaços da superestrutura. Para Gramsci, a hegemonia pode (e deve) ser preparada por uma classe que lidera a constituição de um bloco histórico (ampla e durável aliança de classes e segmentos), que se forma a partir do momento em que os interesses comuns ou aproximados se coadunam num projeto de sociedade. A modificação da estrutura social deve preceder uma revolução cultural que, progressivamente, incorpore camadas e grupos ao movimento racional de emancipação. Porém, haverá, em contrapartida, a busca da manutenção do status quo pelo grupo hegemônico.
Os blocos disputam a hegemonia através de duas esferas, que para Gramsci compõem o Estado: a sociedade Política, que compreende o conjunto de órgãos, instituições e aparelhos coercitivos e; a sociedade Civil, que representa as instituições e organismos responsáveis pela elaboração e manifestação de ideias nas mais diversas formas. Logo, o Estado se caracteriza por: sociedade Política + sociedade Civil.
Sociedade civil e sociedade política diferenciam-se pelas funções que exercem na organização da vida cotidiana e, mais especificamente, na articulação e na reprodução das relações de poder. Enquanto na sociedade política o aparelho repressor se encarrega da manutenção do arcabouço que justifica a dominação de uma classe sobre as outras: como leis, costumes, mas, sobretudo se mantém através da coerção.
Na sociedade Civil, as classes procuram ganhar aliados para seus projetos através da direção e do consenso. Enquanto a sociedade política tem seus portadores materiais nos aparelhos coercitivos de Estado, na sociedade civil operam os aparelhos privados de hegemonia (organismos relativamente autônomos, como a imprensa, os partidos políticos, os sindicatos, as associações, a escola privada e a Igreja). Tais aparelhos, gerados pelas lutas de massa ou necessidades humanas históricas, estão empenhados em obter o consenso como condição indispensável à dominação.
Portanto, a hegemonia pode (ou deve) ser exercida por meio desses organismos que funcionam como uma espécie de “correia de transmissão” de ideias dos blocos detentores da hegemonia ou contra-hegemônicos em uma sociedade de classes.
por Daniel Max,
é Sociólogo e Colunista do Blog.







