Folha de Pernambuco
O ex-major José Ferreira dos Anjos, que ficou conhecido no Escândalo da Mandioca e foi um dos personagens atuantes durante a ditadura militar em Pernambuco, revelou à Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara, alguns nomes dos membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) – organização de extrema direita que confrontava pessoas contrárias ao regime. Durante o depoimento de ontem, o ex-militar relatou que não participou do assassinato do Padre Henrique e do atentado ao líder estudantil Cândido Pinto, que acabou ficando paralítico. Ambos os casos aconteceram no ano de 1969.
Segundo Ferreira, os empresários Roberto Souza Leão e “Biu do Álcool” – amigo do general Antonio Bandeira, que comandou o III Exército -, foram beneficiados financeiramente pelas relações que mantinham com algumas pessoas “influentes” dos governos Estadual e Federal, na época. “Roberto Souza Leão, foi beneficiado com a aprovação de um projeto para implantação de uma destilaria de álcool na Bahia, aprovada pela Sudene, mas ela nunca saiu do papel. Enquanto Biu do Álcool contrabandeava o próprio álcool, por isso tinha este nome, mas ele sempre esteve protegido, por isso nunca foi punido”, afirmou José Ferreira, no auditório do Banco Central.
Nas quase quatro horas de sessão, o ex-major respondia, na maioria das perguntas dos membros da Comissão, que “não se lembrava e não tinha ideia do que se tratava”, irritando o público presente no local. Estudantes, pesquisadores e pessoas que sofreram perseguições na ditadura militar tratavam como “decepcionante” o depoimento. “Ele não vai dizer nada, ele é bem treinado, é um homem de confiança dos militares”, desabafou o pesquisador e ex-militante comunista, Marcelo de Melo.
De acordo com a professora e membro da Comissão Estadual, Nadja Brayner, José Ferreira acabou se contradizendo no depoimento. “A expectativa de fato era que ele assumisse o atentado. A fala dele foi um pouco nervosa, porque envolvia diretamente a sua pessoa no atentado de Cândido”, opinou. Para ela, mesmo fugindo das perguntas, o ex-major deixou escapar alguns nomes que atuaram na segunda seção da Polícia Militar, no período da repressão. “Conseguimos algumas informações relevantes. Os nomes dos informantes Elton Falcão, Glauco Marino e Geraldo Guidotte são importantes e vamos checar mais informações a respeito dessas pessoas”, relatou Brayner .
A mulher de Cândido Pinto, Joana Melo, esteve presente na sessão e espera que outros depoimentos ajudem a esclarecer o atentado ao seu marido. “Não sei o motivo de o ex-militar não esclarecer, ele tinha a missão de vigiar o meu marido e disse que não soube do atentado. Isso é impossível, como é que ele não soube quem tentou matar meu marido? Espero mais respostas”, cobrou.







