Visitas: 4

A Voz da VitóriaA Voz da Vitória

Enfim, Mangabeira diz pra que veio

  • A Voz da Vitória

O Ministro Mangabeira Unger promete apoiar as pequenas empresas, remodelar o sistema de ensino e desenvolver uma nova estratégia de defesa militar.

O ministro de Assuntos Estratégicos da Presidência, o professor de Harvard Mangabeira Unger, é, notadamente, um homem excêntrico. Receoso de que sua passagem pelo governo fosse encarada como folclórica, ele fez questão de enumerar as ações da sua secretaria de Assuntos Estratégicos enquanto esteve em Pernambuco, na semana passada. Unger promete apoiar as pequenas empresas, remodelar o sistema de ensino e desenvolver uma nova estratégia de defesa militar para o País.
Mangabeira Unger parte de um diagnóstico correto da encruzilhada econômica brasileira. O País corre o risco de ficar espremido entre economias grandes que exploram mão-de-obra barata, como Índia e China, e países ricos que possuem maior produtividade e nível educacional. “Temos que escapar pelo lado de cima. O Brasil não tem futuro como uma China com menos gente”, diz.
As propostas que ele trabalha, entretanto, não são nem claras nem objetivas, neste momento. Ele propõe uma transformação das instituições e consciências. Fala em refundar as instituições nacionais, sugerindo um caminho diferente do escolhido por países mais ricos – que são as nações que conseguiram combinar liberdades individuais com crescimento econômico. “Não devemos imitir as instituições estabelecidas nos países ricos”, diz. Unger defende uma radicalização do experimentalismo brasileiro, inclusive na estrutura federativa. Defende um mercado de trabalho com menos hierarquias e inovação, mas é contra a flexibilização da CLT.
Para ele, há três estados com histórias e características que podem servir para implantar os seus modelos alternativos: Rio Grande do Sul, Pernambuco e … Acre. “Eu fiquei muito surpreso com o Acre. É de uma personalidade muito forte”, explica-nos o professor. Para ele, não é uma solução que o restante do País vire industrial como São Paulo, mas que as partes mais atrasadas saltem direto para uma economia pós-fordista.
Unger defende que o Estado interfira numa série de áreas econômicas, como o preço mínimo da agricultura familiar, de forma a realizar uma reforma institucional do mercado. Mas o Estado brasileiro não precisaria mais de reforma do que a economia? O professor responde que sim, mas que, por uma questão tática, a transformação deve ser precedida na economia.
“Eu conclui que não adiantaria apenas formular um projeto conceitual a respeito do futuro. Isso arriscaria eu ficar como um enfeite. É necessário traduzir num elenco de ações que possam começar já”, pregou.
Unger é um entusiasmado com pequenas empresas. Ele defende a adoção de um modelo de concorrência cooperativa, em que as empresas se uniriam para obter ganhos de escala quando possível, na compra de insumos, por exemplo, mas continuariam competindo no preço e qualidade do bem final.
Seu amigo de Harvard, o professor Dani Rodrik, declarou que Unger é, ao mesmo tempo, o homem mais erudito e impenetrável que ele havia conhecido. Eles ensinaram juntos por três anos e Rodrik afirma ter demorado este tempo todo apenas para entender o que ele dizia. O que também faz lembrar, embora com espírito diferente, uma frase do filósofo francês André Comte-Sponville, para quem “águas rasas só parecem profundas quando turvas”.

Da Redação: Lissandro Nascimento.