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Enche o tanque

  • A Voz da Vitória

Joca Souza Leão

jocasouzaleao@gmail.com


Pode ser que a gente dê pra outras coisas, mas pra ladrão, ladrão mesmo, grande, ao que parece, a gente não dá. Não sei, honestamente, se lastimo ou comemoro. Há quem diga que o Estado está perdendo investimentos com a grana que vai pra todo canto, menos pra cá.


Podem até dizer que os nossos representantes são ignorantes, anacrônicos, ineptos, inaptos, preguiçosos, arrogantes, coronelescos, sei lá mais o quê, mas ladrões, não. Quer dizer, poder dizer até podem, não tô dizendo que por aqui não tenha, tem, mas em comparação com os que se vê por aí, os daqui não dão nem pra largada.

Sou do tempo (era menino, mas lembro) de Adhemar de Barros, que foi eleito prefeito da capital e governador do Estado de São Paulo com o slogan (se não oficial, oficioso): “Rouba, mas faz.” Difícil imaginar que alguém fosse eleito para alguma coisa em Pernambuco com uma conversa dessa. E lá, anos depois, com Maluf, eles repetiram a dose. Agora, dupla: “Estupra, mas não mata, rouba, mas faz.”

A caixinha do Adhemar era conhecida. Tinha até letra de música: “Quem não conhece / Não ouviu falar, / Na famosa caixinha do Adhemar?” A “caixinha”, óbvio, era onde os corruptores depositavam as propinas. Durante a ditadura de Vargas, ele foi interventor lá e Agamenon Magalhães interventor aqui. Os adversários se queixavam de Agamenon ser populista, arbitrário, policialesco, censor, torturador e o diabo a quatro, mas não tenho notícias de que o tenham acusado de ladrão. E quando Adhemar foi prefeito de Sampa, sabe quem era o prefeito do Recife? Ninguém menos que Pelópidas Silveira. Apenas. Pelópidas. Nem os milicos do golpe de 64 conseguiram levantar a menor – ainda que mínima – suspeição contra ele.

Hoje, tentam nos fazer crer que o aparelhamento do Estado e a ladroagem são exclusividade de uma única facção e que nunca antes na história deste país se tinha roubado tanto. Pois, sim. O mensalão, mesmo, foi inventado em Minas, no tempo em que Eduardo Azeredo (PSDB) era governador. Aí, a turma do Delúbio (PT) gostou da parada e mandou chamar o carequinha, Marcos Valério, pra montar o esquema no Congresso. Deu na merda que deu. E a governadora Yeda Crusius (PSDB), hem? Taí, toda enrolada, correndo o risco de ser cassada. O César Maia (DEM), um caga-regras básico, andou desafinando legal na construção da Cidade da Música, no Rio de Janeiro.

Lembra o nosso Severino? Não o Severino de Maria, do poema de João Cabral, mas o outro, o que renunciou à presidência da Câmara e ao mandato de deputado pra não ser cassado? Pois bem, compara o que dizem qu”ele recebeu com os valores que Sarney, família e agregados receberam por décadas e décadas. Tadinho do nosso Severino, dá inté vergonha. Ganhava gorjeta, quinem ganham os garçons dos restaurantes da Câmara.

Não há um dia em que os noticiários de tevê não exibam uma cena de corrupção. Quando não são escutas telefônicas gravadas com autorização da Justiça, são câmeras de vídeo escondidas que flagram um sacana com a mão na cumbuca. Governadores, prefeitos, senadores, deputados, juízes, policiais, funcionários públicos, empresários, a geléia é geral. E Pernambuco até que tem passado mais ou menos ao largo. Ou somos incapazes de pegar os nossos ladrões ou não somos tão ladrões quanto os outros. Das duas, uma.

Se essa esculhambação que taí no Senado serviu pra alguma coisa, foi pra mostrar que não há um único partido com representação na Casa que não esteja na chafurdação. (Até tu, Gabeira? E Heloisa Helena, quem diria, uma moça que todos julgavam tão recatada). Pocilgas maiores, pocilgas menores, todos na lama.

Não fosse a acusação feita essa semana a Sérgio Guerra, que viajou ao exterior para tratamento de saúde em companhia da filha, Pernambuco teria passado batido pela crise do Senado. Mas esse pecado de Sérgio – se é que é pecado – é venial. Nada que um ato de contrição e a devolução do valor não resolvam.
E nada comparável com o que fez o cearense, bilionário e seu colega de partido Jereissati, que parou o jatinho na bomba de gasolina do Senado e ordenou: “Enche o tanque aí, menino!”

» Joca Souza Leão,

é publicitário e cronista

(Jornal do Commercio)