
Atila Roque: ”Temos uma epidemia de homicídios no Brasil. Não podemos continuar com 56 mil mortos por ano”
Em entrevista ao Jornal do Commercio, o diretor executivo da Anistia Internacional Brasil, Atile Roque, descreve nuances da violência policial, objeto de estudo do relatório ‘’Você Matou o Meu Filho‘’, lançado este mês. Os jovens negros são as maiores vítimas. Por isso, a Anistia está lançando a campanha Jovem Negro Vivo. Conheça mais sobre o projeto também pelo site da instituição: anistia.org.br.
Jornal do Commercio – O Brasil é líder mundial em números absolutos de homicídios, de acordo com números da Organização Mundial de Saúde ( OMS ), mas poucos crimes são investigados e chegam a algum tipo de conclusão judicial. A impunidade é considerado um fator determinante para estarmos nessa situação?
Atila Roque – Sem dúvidas é um dos maiores problemas. É uma carta branca para matar o fato de você não ter nenhum procedimento investigativo. Sendo um problema ainda maior quando são observados os crimes cometidos pela Polícia. Apenas de 5% a 8% dos homicídios no País são devidamente investigados.
Quando o homicídio acontece pela ação policial este índice é ainda menor. Temos uma epidemia de homicídios no Brasil. Nós não podemos continuar com uma taxa de assassinatos de 56 mil mortos por ano. Destes, 30 mil são jovens entre 15 e 29 anos. Entre esses 30 mil, 77% são negros. Os jovens negros e pobres são as maiores vítimas.
JC – O relatório aponta que 17% dos assassinatos cometidos no Estado do Rio de Janeiro em 2014 ocorreram pela intervenção policial. O que favorece isso?
Atila – O Brasil sofre ainda com uma estrutura militarizada e uma política de guerra da Polícia Militar e da segurança pública. É preciso realizar uma mudança de fundo na doutrina dessa estrutura militarizada das polícias. É preciso promover uma aproximação entre a sociedade e o Estado.
JC – O que é preciso para que esse tipo de crime deixe de acontecer em um País como o Brasil?
Atila – Um Ministério Público mais atuante é fundamental nesse processo. O Estado não pode deixar nenhuma dúvida de que está presente nesses casos. Nós ainda temos uma grande quantidade de armas de fogo nas ruas. Um absurdo em um País em que 90% dos homicídios são causados por armas de fogo.
A solução não passa por flexibilidade a nossa legislação, mas de tirar essas armas das ruas. O terceiro ponto é que não temos uma política preparada para atuar junto à sociedade.







