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Brasília, uma cinquentona em busca de identidade própria

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Agência EFE

Brasília, uma das poucas cidades do mundo erguidas do nada para ser capital de um País, completa 50 anos mantendo-se como um local sem comparações, diferente de todas as antigas metrópoles e ainda em busca de sua identidade própria.

A cidade desenhada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, ainda ativo no auge de seus 102 anos, e pelo urbanista Lúcio Costa, morto em 1998, se consolidou como capital administrativa do Brasil, mas não deixa de ser um lugar estranho, onde, apesar dos amplos e vastos espaços e parques, o concreto se impõe nas construções.
Meio século após sua fundação, em 21 de abril de 1960, a maioria de seus quase 3 milhões de habitantes continua sendo originária de outras regiões do Brasil, dando ao povo brasiliense um ar de miscigenação e um mapa social heterogêneo. Mas ainda assim faltam traços próprios à capital.
Brasília é uma cidade sem esquinas nem referências precisas de orientação, em parte pela monotonia de uma paisagem urbana na qual cada edifício parece uma réplica do outro.
É uma metrópole planificada onde zonas residenciais quase não têm estabelecimentos comerciais e, por outro lado, nas áreas comerciais ninguém mora e nas administrativas só se trabalha.
As grandes distâncias entre um local e outro fazem do carro um artigo de primeira necessidade e seus habitantes ‘seres de cabeça, tronco e quatro rodas’.
Muitos estrangeiros que chegam à capital brasileira se sentem desorientados pelo peso do concreto, embora o horizonte esteja quase sempre à vista e a cidade, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1987, disponha de 50 milhões de metros quadrados de áreas verdes.
Além de se diferenciar das capitais latino-americanas por sua concepção futurista, própria do modernismo de meados do século XX, muitas de suas características a diferenciam do resto do próprio Brasil.
É a capital do ‘país do futebol’, mas não tem um só time na primeira divisão do Campeonato Brasileiro e seu único estádio deverá ser reconstruído quase totalmente para se adaptar às normas da Fifa e ser uma das cidades-sede da Copa do Mundo de 2014.
Também é a capital do ‘país do Carnaval’, mas não está no circuito dos turistas nas festas de fevereiro. E assim como em vários outros feriados, Brasília vira cidade-fantasma no Carnaval.
Brasília é também a capital de um país de belas praias ensolaradas, mas fica sobre um dos mais altos planaltos do continente, a 1,2 mil metros acima do nível do mar, e a cerca de 1,2 mil quilômetros do litoral.
Ainda assim a cidade tem a terceira maior frota de barcos de esporte no país, com cerca de 12 mil veleiros e lanchas que navegam pelo lago Paranoá, um lago artificial de 42 quilômetros quadrados construído para atenuar o clima seco do cerrado.
Dois dos primeiros estrangeiros que visitaram a nova capital foram os filósofos Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que estiveram lá no final de 1960, quando a cidade começava a tomar forma.
Simone de Beauvoir relatou sua experiência no livro “Sob o signo da História”, descrevendo Brasília como “uma grande maquete” carente dessa “mistura caprichosa das ruas, imprevista e tão encantadora, como a de Roma ou Chicago”.
Sartre, por sua vez, observou que a arquitetura de Oscar Niemeyer, apesar de “fascinante”, já então “organizava de forma rígida demais a vida de seus habitantes”.

Meio século mais tarde, as coisas não mudaram muito e a cidade que entesoura muitos dos melhores projetos de Niemeyer divide opiniões.
Seus críticos a consideram “artificial”, “fria” e “sem alma”, mas seus defensores não trocam por nada a tranquilidade bucólica de uma cidade com os mais baixos índices de insegurança, a maior renda per capita e a qualidade de vida mais alta do Brasil. (Folha de Pernambuco)