Folha de Pernambuco
Na opinião de cientistas políticos procurados pela reportagem, a população brasileira tem dificuldades em enxergar atos de corrupção no seu convívio. Túlio Velho Barreto avaliou que isso acontece porque o brasileiro é complacente com a corrupção. “É um fenômeno social. De modo geral, as pessoas não percebem o impacto que pequenos atos de corrupção têm. O problema é só a escala desses atos. São atitudes cotiadianas que levam o cidadão a agir de forma ilícita. A fila do banco, a faixa do trânsito, são pequenos atos que demonstram que as pessoas toleram a corrupção no seu dia-a-dia”, destacou.
Para o cientista político Hely Ferreira, a população critica a corrupção, mas acaba contribuindo para que ela continue a existir. “No Brasil, a separação entre o público e o privado não existe. Aqui, tem a tradição do jeitinho. A população critica a corrupção, mas, em sua maioria, contribui. Não existe zelo pela coisa pública. As pessoas querrem acabar com o que é do Governo”, observa o analista.
A impunidade também é um fator que contribui com a corrupção. Túlio Velho Barreto citou o caso da deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF), que foi flagrada recebendo propina durante a campanha eleitoral, mas acabou sendo absolvida pelos seus companheiros da Câmara Federal. “A Justiça é lenta, não é exemplar, existe muitas vezes foro privilegiado e permite que os culpados se livrem. A ideia de que o crime compensa não prevaleceria, se a Justiça fosse mais célere”, sacramentou.
Hely Ferreira ressalva que a falta de punição desistimula a sociedade a se mobilizar contra a corrupção. “A população acredita que não deve se mobilizar porque não vai haver punição. Há uma crença de que os culpados por corrupção não são punidos no Brasil”, lamentou.
Túlio Velho Barreto alerta que é preciso acabar com a cultura de “levar vantagem” no País. “A tolerância existe, mas muitas pessoas acham que tudo é uma questão de oportunidade. É como se o ser humano tivesse uma natureza má. E isso não é uma questão biológica, mas cultural. O brasileiro não nasceu corrupto. E é preciso que os homens públicos deem o exemplo”, concluiu.






