Visitas: 9

A Voz da VitóriaA Voz da Vitória
Água Preta

Em Água Preta, obras arte discutem a fome e a violência no Brasil

  • A Voz da Vitória
Em Água Preta, obras arte discutem a fome e a violência no Brasil

O objetivo é estimular o turismo, e a consequente atividade econômica na região da Mata Sul de Pernambuco. Fotos: @charles_fotografo/Divulgação.

Em diálogo com sintomas sociais atuais,  “Um Campo da Fome”, de Matheus Rocha Pitta, e “Paisagem”, de Regina Silveira, ampliam o acervo do museu pernambucano para mais de 40 obras

Um labirinto de paredes transparentes de vidro cravejadas por bala e uma horta sagrada que contém e congela a fome. Duas obras estruturadas individualmente, cada uma ao seu tempo e modo, por dois dos principais nomes das artes visuais do País, ocupando juntas mais de 800m² de área e que sintonizam a criação artística às cicatrizes sociais que marcam o Brasil e o mundo. São com esses ingredientes que a Usina de Arte amplia o acervo do seu Parque Artístico-Botânico, com as recém-inauguradas obras “Paisagem”, de Regina Silveira, e “Um Campo da Fome”, de Matheus Rocha Pitta.

De nome sugestivo para uma obra interativa, “Paisagem” fixa residência no Parque Artístico-Botânico do equipamento cultural em Água Preta, na Mata Sul de Pernambuco, após ser um dos destaques da 34ª Bienal de SP em 2021. Financiada pela Usina de Arte, a obra propõe uma experiência singular, ao convidar o visitante a enfrentar um labirinto de quase 100m², com paredes de vidros medindo 2,5m de altura que trazem a 1,40m do chão furos com imagens impressas de tiros que mimetizam terem sido cravejadas por balas.

“Cada um tem a sua percepção e experiência ao entrar em Paisagem. O percurso pode ser muito curto ou infinito, direto ou circular – observo que há muitas saídas e todas estão à vista”, provoca Regina. Em uma conversa sobre as violências assistidas e sentidas, a obra materializa uma série de labirintos gráficos que a artista iniciou nos anos de 1970, trazendo também a representação de tiros, outra marca do seu trabalho, a exemplo da série Crash, nas quais louças de porcelanas são “quebradas”.

Silveira explica que labirintos são configurações ancestrais de espaços difíceis de habitar ou atravessar. “Paisagem, deliberadamente, remete à violência diária que experimentamos – presencialmente ou virtualmente – em todo o mundo. Os tiros, furados e impressos digitalmente nos vidros, foram apropriados da mídia que consumimos em jornais, revistas e TV”, aponta a artista visual que utilizou na obra 12 tipos de representações visuais de estilhaços.

Para ela, a nova residência fixa da instalação, agora ao ar livre, também acresce a ela novas nuances às já percebidas na Bienal. “Estar em espaço aberto transformou o labirinto numa verdadeira fantasmagoria – porque reage totalmente à qualidade da luz. Ganhou outro tipo de presença e até diria que ampliou muitíssimo seu grau de irrealidade”, finaliza. Os corredores do labirinto medem 1,20m e atendem às normas de circulação e de acessibilidade.

A estética glauberiana da fome

O enredo da violência também encontra assento em outra inauguração da Usina de Arte, a superlativa – em escala e entendimentos – “Um Campo da Fome”, de Matheus Rocha Pitta. O violento aqui, entretanto, é legitimado pela função transformadora que pode ter. O instrumento de resistência do oprimido apontado por Glauber Rocha no manifesto “A estética da fome”, grito anticolonialista de 1965 e pilar do Cinema Novo, no qual o diretor defende uma linguagem emancipadora a partir da falta de comida e diagnostica que “enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo”.

Pitta também trouxe como insumo criativo a descrição de um campo da fome ao leste da Acrópole, na Grécia Antiga. Um terreno de mata onde não se podia entrar sob a pena de que a fome fugisse daquela redoma, como se estivesse presa, e alcançasse outros lugares. “Quis fazer a obra nesse sentido de contenção da fome. Recentemente, o Brasil voltou para o Mapa da Fome, as condições brasileiras estão voltando para uma situação parecida com a época do Glauber, então imaginei um lugar quase que sagrado, para deixar que a falta de comida fique só ali, congelada”, explica o artista visual.

Maturada por três anos, a obra traz uma horta petrificada de 720m² (18x40m), com 30 canteiros, onde em cada um deles estão dispostas peças de cerâmica de uma fruta, raiz ou legume, de tradição no cultivo agrícola pernambucano, com feição do seu momento de colheita e armazenamento. Ao todo, a instalação é composta por cerca de 9 mil peças produzidas por Seu Domingos, artesão de Tracunhaém – cidade da Mata Norte de Pernambuco que se destaca pela produção de artesanato com barro. O resultado é um sequestro cromático de matiz terracota, no qual os alimentos – tal qual a fome – só são percebidos a partir de um contato visual mais próximo.

“A obra faz esse diálogo com o tempo em que se apresenta e também com o seu entorno a partir da homenagem à mão popular e ao artesanato, elemento imprescindível para a obra e que sai do seu meio de circulação. Frutas que são feitas para ficar na decoração de casa assumem outros papéis”, acrescenta Matheus Rocha Pitta, que tem deitado luzes sobre o elemento comida em sua trajetória artística. “Campo da Fome estabelece um novo marco nessa régua do tempo, pois nunca fiz um trabalho nessa escala monumental, e agradeço à Usina de Arte por isso. Tive liberdade total durante o processo criativo, sem restrição temática nem de espaço. Existe uma coragem muito grande aqui de abraçar a liberdade artística”.

Originalidade e responsabilidade cultural

O curador da Usina de Arte, Marc Pottier, sublinha que esse momento de expansão do acervo do Parque Artístico Botânico consolida dois formatos estratégicos de aquisição de obras do projeto: via residência artística e relacionamento institucional. “Ao tempo que queremos que o artista namore o espaço da Usina, entenda seu entorno e pense em um projeto que esteja em acordo com a natureza, com a história desse lugar que foi uma usina de cana-de-açúcar, exaltando a originalidade do projeto, também entendemos a responsabilidade cultural que a Usina de Arte tem para o fomento da produção artística a partir de laços com institucionais”.

É nesse último caminho que a obra de Regina Silveira se insere, fruto de um diálogo interinstitucional com a Bienal de São Paulo, a partir da viabilização da obra pela Usina de Arte. “Para a artista, também representou um grande desafio por ter que pensar a obra para a Bienal, em ambiente fechado, já sabendo que a instalação depois seguiria para um contexto de ar livre. São para esses horizontes que a Usina de Arte tem olhado enquanto um equipamento comprometido não só com o que há de mais particular nos seus propósitos ao tempo que também dispõem as suas antenas às produções artística nacional e global”, finaliza Pottier.

Sobre a Usina de Arte

Instalado onde funcionou a Usina Santa Terezinha (maior produtora de álcool e açúcar do Brasil nos anos 1950), na cidade de Água Preta, Mata Sul de Pernambuco, o projeto Usina de Arte conecta arte, cultura e meio ambiente, criando um museu de arte contemporânea ao ar livre, dentro de um Parque Artístico-Botânico. Nele, estão instaladas mais de 40 obras de nomes como Geórgia Kyriakakis, Saint Clair Cemin, José Spaniol, Juliana Notari, Denise Milan, José Rufino, Flávio Cerqueira, Bené Fonteles, Hugo França, Paulo Bruscky, Marcelo Silveira, Liliane Dardot, Marcio Almeida, Frida Baranek, Artur Lescher, Carlos Vergara, Júlio Villani, Iole de Freitas e Vanderley Lopes.

Em meio a um trabalho de reflorestamento com cerca de 10 mil plantas de mais de 600 espécies, em uma área de mais de 33 hectares, o Parque Artístico Botânico é eixo central da iniciativa que irriga outras ações de desenvolvimento para a criação de estruturas para geração de renda e valor para a comunidade de 6 mil moradores no entono do projeto. São exemplos a escola de música, biblioteca e centro de conhecimento público com mais de 5 mil títulos, FabLab com terminais de computadores conectados à internet, impressoras em 3D e cortadora a laser para projetos da comunidade, além de parceria com as unidades escolares no apoio de novas práticas pedagógicas.

O objetivo é estimular o turismo, e a consequente atividade econômica na região da Mata Sul de Pernambuco por meio do estímulo ao empreendedorismo na localidade, que viu nascer em seu entorno um total de dez restaurantes, pousada, pesque-e-pague, centro de artesanato, guias para passeios ecoturísticos, camping e a cultura de hospedagens domiciliares.

O projeto é desenvolvido e gerido pela Associação Socioambiental e Cultural Jacuípe, entidade sem fins lucrativos que reúne mais de 40 membros de segmentos plurais da comunidade da Usina Santa Terezinha, sendo viabilizado a partir do apoio de pessoas físicas e jurídicas. As contribuições podem ser realizadas via transferência bancária: Banco do Brasil (001) | Ag. 2361-2 | C/C: 16.694-9 | CNPJ: 24.506.253/0001-08.

Recentemente, o parque recebeu as obras “Banquete da Terra” da artista paulista Denise Milan, e  “Nadir quase uma ilha” e “Athar”, do brasiliense Tulio Pinto.