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A corrupção é o outro

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Chico Ludermir
Do JC Online

Quando pensamos em corrupção, inevitavelmente o que vem à cabeça são os desvios no poder público. Sanguessuga, Boi Barrica, Caixa de Pandora, Castelo de Areia… São milhões de reais que deixam de ser investidos em projetos para a sociedade e terminam nas contas de políticos desonestos.

A relação direta parece natural. Ratificada pelos noticiários, traça no imaginário do cidadão um sofisma: “É o poder que corrompe”. O engano de culpar a política, contudo, perpetua a visão de que a corrupção é sempre o outro, fruto de uma perspectiva do poder como algo que vem de cima para baixo e não como relacional.

Mesmo famoso pelo jeitinho, o brasileiro continua a enxergar no alter a causa do mal. Escutando dez pessoas que passavam pelas ruas do centro do Recife, alguns titubearam na definição de corrupção ou no aponte de suas causas. Quando a pergunta, entretanto, foi “quem são os corruptos” ou “a que você associa a corrupção” a resposta foi unânime: políticos.

“Os próprios governantes da gente lá em Brasília são corruptos. Ali é brincadeira. Gera até morte”, respondeu o balconista de farmácia E.S.S. de 36 anos. Se não tivéssemos habituados, uma gargalhada que acompanhou a declaração poderia ser considerada estranha.

A entrevista continuava em situações hipotéticas individuais.

“Você deixaria alguém entrar na sua frente numa fila ou pediria para alguém deixar você passar?”

“Quando vejo algum conhecido ou parente, eu faço. Na lotérica, no banco e no mercado”, disse o mesmo E.S.S.

A terceira situação da entrevista era uma blitz. O balconista assegurou: “Se eu tivesse errado eu tentava resolver, amenizar. Se tivesse oportunidade eu pagava, mas esperava o guarda propor, para que o suborno não partisse de mim”, confessou. “Não vou dizer que sou santo, por que eu não sou”, sorriu na despedida.

O caso acima é sintomático. Do pequeno universo de entrevistados todos fariam igual: furariam a fila. Apenas dois disseram que não subornariam. A amostra é pequena mas é símbolo de uma retórica que exime o cidadão de olhar para si mesmo.

A raiz do problema cabe aos que não tem cargos ligados à política. O país que os políticos vivem é o mesmo de E.S.S. A prática daquele que furou só uma “filinha” é essencialmente a mesma do prefeito que superfatura um show.

Enquanto um ganha, todos os outros saem perdendo. E a estratégia é utilizar certa influência como instrumento de dominação. Seja um amigo na fila ou na presidência. Enquanto isso o problema é visto de longe.